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Louco da Capilha

sexta-feira, 12 de Abril de 2013 | 09:41

Contos de Merda

 

 

A história que vou contar não tem comprovação, mas sempre frequentou o anedotário dos moradores da Capilha. A propósito, para que os leitores situem-se geograficamente, a Capilha é a sede do Taim, quarto distrito do município do Rio Grande – RS. Fica às margens da Lagoa Mirim e abriga em parte a Estação Ecológica do Taim, um dos maiores viveiros naturais de animais e vegetais do Brasil.

A origem do nome do distrito e da sua sede, em que pese suscitarem controvérsias, para mim, nativo do local e estudioso da sua história, Taim é uma expressão indígena que significa “pequena”. Assim, considerando que a franja litorânea onde se situa, é composta de banhados, lagoas, praias arenosas e dunas litorâneas, permeadas por campos, é razoável supor que os índios que vagavam naquelas plagas, em razão dessas pequenas porções de terra, tenham denominado o lugar de Taim. Fosse à região pedregosa, certamente a teriam batizado de Itaim, que em tupi-guarani significa “pedra pequena”. Capilha é uma corruptela de “capilla”, capela em espanhol. Na sede do distrito existe uma capela mandada construir pelo Tenente Faustino Corrêa, pai do Comendador Domingos Faustino Corrêa, em 1844. Antes dela, existia outra, daí a origem do nome do lugar. Pela sua posição estratégica, tornou-se ponto de parada e descanso entre os que se aventuravam nos caminhos inóspitos que ligavam Rio Grande e Santa Vitória do Palmar.

No entorno da capela formou-se um casario hoje reduzido a um sítio arqueológico. Nesse cenário, como não poderia faltar, tinha uma hospedaria, que por sinal pertencia a minha bisavó Maria Madalena Cadaval Rios, onde os viajantes paravam para pernoite, alimentação e troca de cavalos.

Numa dessas noites frias do mês de julho, acossado por uma chuva tocada a vento, vindo da banda oriental do Uruguai, bateu à porta da minha bisavó um viajante debilitado pela fome e cansaço.

- Buenas noches Doña Madalena.

- Boa noite. Entra homem de Deus!

- Gracias. Estoy cansado, mojado e hambriento.

- Hambriento?

- Com mucha fome Dõna Madalena.

- Ah! Sim. Dá pra vê. Posso ajudar-lhe matando sua fome, mas infelizmente não tenho um quarto para oferecer. Todos estão ocupados. São só quatro.

- Por el amor de Dios no me digas, estoy durmiendo en pe.

A essa altura da conversa a velha hospedeira lembrou-se que em um dos quartos ocupado por um bêbado sobrava uma cama. Não era uma boa opção, mas enfim a única possível. Num portonhol faceiro lascou a solução.

- Bueno, hay un lecho vago, piero en la habitación hay un borracho.

O homem se agarrou com as duas mãos na oferta. Garantida a noite de sono, passou de imediato a atacar a garfadas um arroz branco, feijão e carne de capincho assada no forno à lenha. Comeu até se fartar e foi dormir. Na madrugada foi despertado por uma dor de barriga daquelas que não dão tempo nem para pensar. Procurou o penico de baixo da cama e não achou, a patente não sabia onde ficava; nesse vacilo, antes que achasse uma alternativa, sobreveio a primeira onda, quente e pastosa, que lhe encheu as bombachas. Só não vazou para o chão batido porque as pernas da indumentária estavam abotoadas nos tornozelos. A essa se seguiu uma segunda, mais líquida e fétida, com o que se completou a desgraça.

Na cama ao lado, absolutamente alheio a tudo, em coma alcoólico, estava o parceiro de quarto deitado debruço, sobre as cobertas, provavelmente na mesma posição em que foi largado. Ajudado pelos primeiros raios de luz do dia que amanhecia pode ver que o ébrio trajava umas bombachas iguais a sua, dessas largas e com favos laterais, na cor bege. Instigado por mil diabos não titubeou em trocar de bombachas com o infeliz. Afragatou-se como pode, recusou o café, pagou a conta, encilhou o flete e ganhou a estrada no rumo norte.

Passado um ano e pouco do sucedido, retornando para os pagos, fez parada na hospedaria. Dessa feita, bem-humorado e trajando uma pilcha impecável, foi logo apeando e amarrando o cavalo no parapeito. Assim que deu com os olhos na Dona Madalena, gritou:

- Buenas tardes doña Madalena. Como esta señora?

- Muito bem graças a Deus e o senhor?

- Muy bien. Doña Madalena me digas dónde está el borracho?

- Então não sabes? Enlouqueceu.

- lo que sucedió?

- Naquele dia que o senhor partiu, por volta das quatro horas da tarde, quando o pobre homem se acordou, reparou que as bombachas estavam cagadas e as cuecas limpas, sem qualquer vestígio do ocorrido. Desde então, sem achar uma explicação, acabou por perder completamente a razão. Agora vive caminhando nessa carreteira, pra cima e pra baixo, conversando sozinho e repedindo sem parar: “já vi muita assombração, boitatá, mula sem cabeça e lobisomem, só não vi merda varar cueca sem deixar marca”.

- Que Dios me perdone!


Escrito por Delamar Corrêa Mirapalheta

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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