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O jovem casal

quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013 | 10:08

Hora crepuscular de domingo, momento em que as pessoas de temperamento melancólico tornam-se mais vulneráveis, propensas a desmanchos interiores, enlevos íntimos.

Já instalado no ônibus do box 43 da estação rodoviária de Porto Alegre, passo a observar um jovem casal na iminência de embarcar. Sentados face-a-face, frente à bagagem volumosa, se dispõem a enfrentar longa viagem ou será que padecem a mágoa de breve forçado afastamento?

Natural me parece ser, que passem despercebidos ante a multidão tumultuária e rumorosa da estação, para a qual parecem devolver a mesma indiferença afetiva. Certamente foi a crônica empatia com a farda da Brigada Militar, que me levou a percebê-los. O soldado e a esposa – como sinalizam as alianças – estão a prodigalizar, em meio àquele desvairamento coletivo, contagiante cena de ternura e beleza. Destacam-se, principalmente, pela distinção. Sim, por que a beleza, quando desacompanhada da distinção, roça à vulgaridade.

Ele enverga singelo, mas impecável fardamento-de- instrução. A relativa distância não me permite ler o nome apenso ao lado esquerdo da camisa-de-campanha, tampouco o brasão da Unidade a que pertence. Porta revólver e, no cinto, munição suplementar. Seu rosto é claro, os lábios finos, cabelos pretos, lisos. Apesar da idade, já esboça incipiente calvície na região occipital. No lado direito da camisa – de- instrução ou de combate, ostenta pequeno distintivo impresso em azul (este detalhamento excessivo justifica-se, por que não me resigno a que a eles não cheguem os acenos de minha admiração).

A esposa tem um rosto bonito. Sorri, plena de jovialidade. Veste-se de maneira discreta, apanágio das mulheres verdadeiramente elegantes. Mantém a cabeça altiva, como num perfil de deusa. Acabam de fazer um pequeno lanche e merece salientarmos a observância da etiqueta, o bom-tom como o faziam, incapazes de umedecer, sequer, a ponta das unhas. Em suma: retratam muito bem a Corporação representada.

Comovente a maneira como entretinham os olhos um no outro. Ele, como a reeditar os versos do poeta: “Gosto de envolvê-la com meus olhos, com meus olhos que nada mais veem, quando a envolvem...” Percebível, claramente percebível, o encantamento e o diálogo carinhoso que mantinham. O distinto colega de farda a intervalos olha para trás, ora à direita, ora à esquerda, num gesto medular de permanente vigilância. Submete-se a esse desconforto da cabeça mal voltada – como na descrição pessoana -, pois à missão de proteger a sociedade, se lhe adiciona – com todo o direito de adicionar, viram?! -a de proteger sua amada.

Fato singular: a dureza da profissão que abraçou - onde a prudência está, não raro, em agir com audácia e a audácia está, não raro, em agir com prudência – não se mostrava inconciliável com gestos que delicada, amorosa e inexcedivelmente tributava à esposa.

Em determinado momento ele beija o dedo indicador e vai colher microscópica partícula pousada na face da esposa-namorada. Depois, beija-a suavemente, sem o despudor com que, hodiernamente, os moços expõem e aviltam suas futuras esposas na via pública. Impossível e injusto não admirá-los. Mostram-se dignos um do outro. Merecem-se. E dão,desestudadamente, uma sublime lição de amor sentimento, de inefável bem-querer.

Ao contemplá-los – por que faculdade distinta do simples ver – incoercíveis cogitações assomam em minha mente: “Estarão de retorno da Operação Golfinho?”... “Parece-me um salva-vidas!”... “Uma intempestiva insensível transferência para o Interior do estado os estaria condenando a viverem em lugares distantes?”... E logo, por um desses nem tão estranhos mecanismos da memória, intuo que não há funções grandes nem pequenas, apenas funções bem exercidas e funções mal exercidas, e que o amor, como vibração da essência divina, independe das circunstâncias de local e de tempo.

Meu ônibus parte, levando-me em “estado de graça”. Então se me redesenha, com incrível nitidez, minha mãe em desespero, abraçada a meu Pai (ex-Combatente de 30 e de 32), numa madrugada brumosa e fria de São Francisco de Paula, enquanto ele calçava pressurosamente as perneiras, para coibir desordens nos focos de virulentos inimigos da sociedade.

Lembrei-me das mesmas apreensões que mais tarde padeceria minha esposa, há dois anos falecida, médica dedicada à família brigadiana. Hoje, decorridos apenas três dias do pôr-sol do último domingo, momento em que agonizam em todo mundo - não só “nos bentos cantos dos conventos”, as orações a Nossa Senhora, pedi a ela para que jamais aqueles jovens enamorados se quedem vencidos. E na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, sinto impor-se, complementarmente, a criação do Dia da Mulher Brigadiana, quer a enquadrada em nossas fileiras, quer a que se tornou cativa de nossos laços afetivos. É que, o desapego à ostentação, o espírito de renúncia, a busca do amor pelo amor, a resignação a uma vida singela, constituem as mais incisivas de suas virtudes.

Socorro-me desta revista da Asof/BM, como forma de fazer chegar a todos e a cada um de nossos soldados (quem sabe ao próprio casal-enamorado) a música daquelas fisionomias que o tempo enrugará, mas não conseguirá silenciar, pois a beleza não morre, como eterna reprodução de momentos eternamente belos.

Paulo F. M. Pacheco – TCQOEMREF - CFO Turma 1960.


Escrito por Paulo Francisco Martins Pacheco

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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