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O preço da civilização (crônica publicada no Diário Popular)

segunda-feira, 26 de Setembro de 2011 | 16:19

Procura-se um jipe bem reforçado, desses que se converteram em sucata do Exército, pois cursos de direção defensiva não bastam, para transitarmos com segurança nas tumultuadas ruas de Pelotas.

A preocupação com um eventual acidente levou-me a consultar meu cunhado, coronel do Exército - arma de material bélico, Aman/1962 – cujo, me aconselhou arrematar o Dodge 3 x 4, verde–oliva dotado de guincho e de petrechos outros, que o tornam altamente dissuasório.”Podes até assestar uma metralhadora .50 em cima dele, capaz de varrer, incontinenti, o inimigo do mapa.”

Comove-me sempre, nossa pacifista, comedida, solidariedade intrafamiliar. No entanto, mesmo protegido pela casamata ambulante acima descrita, prometo trafegar vagarosamente, suportando, com humildade, os apupos e as buzinadas de afoitos incivilizados munícipes. Mas ao cabo, gratificou-me, sobejamente, a aquisição do possante jipe paisano Javali, dentro do qual fruo a inefável sensação de contemplar, ileso, meus homicidas em potencial. Há pouco, atento em servir, achando-me prestativo, alertei um motorista:”Porta aberta!”” Boca aberta é tu e a vovozinha!” – respondeu-me o mal-agradecido deficiente auditivo. Pois não adianta! Para os desvairados do trânsito a multa não constitui medida corretiva. Castigos mais drásticos se impõem e chego a sonhar com a benéfica retomada dos eficazes corretivos pela chibata e a palmatória.

Aqueles que alegam a condição de hábeis motoristas são, potencialmente, os mais perigosos. Não passam de autênticos celerados; sequer logram entender que os imprevistos do trânsito os tornam incapazes de controlar um automóvel em alta velocidade.

Ultimamente, me tem assaltado a impressão de que o escurecimento do pára-brisa e dos vidros laterais, mais se destinam a esconder o mau-caráter de deseducados motoristas, do que protegê-los da incidência do sol. Destarte, por que o carrasco encapuza suas vítimas? É, certamente, por não lhes suportar o olhar de censura. Outro dia, chamou-me a atenção o dito sentencioso de um motociclista: “Ser motoqueiro é não saber distinguir onde termina a cabeça e onde começa a máquina.” Desnecessária reflexão, meu jovem, não há, no caso, começo nem fim: cabeça, máquina e nádegas acham-se acopladas, formam um bloco único, coeso, homogêneo, indissociável – e, ao parecer, com acentuada predominância destas.

São sete horas e resolvo empreender minha caminhada matinal, aproveitando o pacificado trânsito de domingo. No cruzamento da rua Armando G. Sica com a Dom Joaquim, ouço a fricção de pneus no asfalto e a aceleração máxima de um motor. Fico paralisado ante a grave ameaça que se aproxima e a presumir: o escasso volume psíquico do motorista. Surge então um reles ultrapassado Chevette que, em ziguezague, dobra contramão na Dom Joaquim. O Piquet urbano lança-me um olhar de triunfo – deve ter pensado que parei para aplaudi-lo. Quatro caroneiros o acompanham, extremes de medo, vale dizer, sem a coragem de protestar e desvencilhar da aventura temerária que assumiram.

Conforta-me, neste exato momento, o fato de minha filha já ter concluído seu curso na UFPel e de residir, hoje, numa pacata cidade interiorana. No entanto, seria pouco cristão, máxime nestes dias pré-natalinos, quando, paradoxalmente, o número de acidentes aumenta mais do que no Carnaval, deixar de temer pelos estudantes que, diuturnamente, têm de percorrer esta selva de pedra, onde felinos, havidos de carnagem,”dirigem”seus carros.

E os desvarios vão continuar...Vão continuar, porquanto, na cabeça desses inconseqüentes, o preto do asfalto, recém-implantado para nos trazer conforto, destina-se unicamente a multiplicar as tarjas de luto. Todos os motoristas deveriam fazer breves estágios nos prontos-socorros, ali onde se sucedem, em espantosa alternância, as súplicas a Deus, as obsedantes acusações da consciência e o vão desejo de querer desacontecer, o que irremediavelmente já aconteceu.

Acentua nossa desesperança a lapidar sentença de Adenauer: “É extremamente injusto que Deus, tendo limitado severamente a inteligência humana, não tenha limitado, também, a estupidez humana”.

 

 Paulo F. M.Pacheco –Cirurgião bucomaxilofacial


Escrito por Paulo Francisco Martins Pacheco

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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