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IMPRESSÕES DE UMA VISITA

segunda-feira, 25 de Outubro de 2010 | 16:50

“Súbita ao luar me apareces dançante,

movendo-te lentamente na luz que ba-

te em cheio na tua fachada desfeita”

Carlos Lacerda


DESCOMPROMISSADO, qual um forasteiro, visito o Clube Comercial de Pelotas. Observador sem preconceitos e sem passado no Clube, natural esperar que sua configuração não produza em mim qualquer efeito emotivo. Contemplo, primacialmente, sua forma arquitetônica e as obras de arte que abriga. Porém, sem demora, começo a divagar. Assalta-me o vão desejo de desencobrir o que escondem suas paredes. Devo ao “cheiro”, que rivaliza com a música em poder evocativo, o conduzir-me de torna-viagem ao Clube Comercial de Santana do Livramento.

Vivo então, plenamente vivo, o apogeu dos anos dourados. Imagino os pontos de intersecção de ambos no tempo, máxime, quando no frenesi de retumbantes réveillons. Sigo pela escada atapetada em vermelho e assumo uma postura reverencial, talvez por senti-la cúmplice de segredos guardados: sabê-la passagem, passadiço, passarela aonde desembocavam sonhos realizados ou fiapos de amores desfeitos. Contemplo os amplos salões e seus machucados encantos. Pressinto remanescer uma cilada de amor em cada canto.

Prossigo, tateando o meu pensar por salas escuras e quietas, para me deter junto ao álbum de fotografias. Uma delas tem o condão de libertar minhas emoções, faz renascer, com agitação ruidosa, o salão tumultuário de outrora. Vejo um começo de baile. É começo de baile certamente, pois não se percebe, à luz intensa dos candelabros, uma só fisionomia fatigada. O ritmo é, ou estava sendo alucinante. Parece que houve uma pausa, enquanto a orquestra Cassino de Sevilha executava Tequila. Percebe-se a interrupção efêmera, porque os vestidos revoluteiam – ainda não totalmente regressados às saias de armação.

As faces!... As faces estampam e aprisionam uma felicidade sem limites. Este aprisionamento, impeditivo da finitude do belo, confere singular prodígio ao instante retratado. Para onde se recolheram os passos ritmados, após a pausa, logo-logo e muitas vezes retomados? Em que regiões excelsas fazem-se ouvir as melodias daquelas vozes? Qual o paradeiro definitivo desses entes que demonstram tanto acreditar na vida?

Era um tempo inconciliável com o apelo lascivo e grosseiro de nossos dias. Nenhuma moça, por mais “avançada” que fosse, dar-se-ia ao despudor de executar a execrável sucessão rítmica da “dança da garrafa”, menos ainda, `a impudência de se entregar ao “nobre” sentimento humano suscitado pelos versos: “Um tapinha não dói” e “Martelando com o martelão”... Verdade que também dançávamos à meia luz de lâmpadas indiretas, sob o efeito do álcool e de perfumes afrodisíacos, contudo, não violávamos o Código Penal. É que, as mensagens contidas em As rosas não falam, Besa-me mucho e La Barca, conduziam-nos à mansuetude, ao amor sentimento, a íntimos enlevos.

Mas quem disse que sou um forasteiro neste recinto? O Clube, já o “sentira”, agora lembro, nos relatos de seu mais apaixonado habitué: doutor Luiz Carlos Centeno, há 20 anos falecido. Sim, ocorreu uma pausa, talvez uma cessação da realidade, naquele baile que o amigo vivenciou... Ou terá sido um agourento silêncio, precursor do silêncio definitivo?

O acaso, este croupier estrábico, propiciou-me revisitar o amigo justamente em seu Shangri-lá e num momento de extrema exaltação. Por tudo isso, deixar cair este patrimônio, permitir que seus encantos – “relíquias de casa velha” – se deteriorem é, no mínimo, descompreendê-lo. Imperioso conceder-lhe um novo início, torná-lo receptivo como antes, para que as explosões de entusiasmo voltem a aquecê-lo, o fulgor dos olhares a iluminá-lo e as emoções se renovem, como ondas, através das novas gerações.

Do livro Amados Fantasmas – crônicas que agudizaram – de Paulo F. M. Pacheco

 


Escrito por Paulo Francisco Martins Pacheco

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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