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Dilemas da Comunicação

terça-feira, 05 de Outubro de 2010 | 15:52

Encontrei exposta, no museu de Santiago, carta do embaixador chileno, no Canadá. Datava do último quartel do séc. XIX, confessando, o diplomata, que a invenção do telégrafo sem fio tornara dispensáveis as embaixadas. Desnecessário recapitular, seqüencialmente, o vertiginoso avanço das comunicações, a confirmar, incisivamente, a assertiva anterior.

Infenso a modismos, imune às psicoses coletivas, só cogitei aderir à Internet, quando advertido por uma colega: “Como? Não tens e-mail? Pois estás fora do mundo!” Desde então o cerco foi se fechando e, relegado à condição de analfabeto técnico, acabei por me integrar.

Com receio de pagar vexame numa turma de jovens, contratei afoita instrutora, que passou a executar operações incríveis, atalhos impertinentes, sem me explicar o porquê de cada passo. Em sendo assim, pedi que me ensinasse apenas manobras essenciais e perseguindo sempre o mesmo caminho. Após uma semana, recém brevetado, “cidadão do mundo”, ensaiei meu primeiro vôo sem a instrutora. Mas tive a infelicidade de ANEXAR uma bagaceira mensagem à freira-chefe do bloco cirúrgico, cuja, se benze cada vez que me vê; enquanto contemplava o alemão Tochtrop, o mais devasso dos meus amigos, com um casto texto do padre Nivaldo Monte.

Se viver é perigoso, como sentenciou Guimarães Rosa, meter-se à internauta me pareceu uma missão tão temerária quanto a das antigas navegações cabralinas. Ocorre que os homens de raciocínio rápido, por isso mesmo inconseqüentes – os “avoados”, como dizia minha avó- depois de ganharem embalo acabam rompendo todos os diques do bom senso. O ideal seria que pensassem, pensassem como dizer e só então dissessem.

Como os professores costumam ter a palavra tão fácil que não conseguem guardá-la, padeci, recentemente, duas merecidas admoestações. A primeira foi de um amigo reencontrado depois de 40 anos; a segunda, de um parente. A Internet é um perigo, volvo a dizer. Entrincheirados na barricada, relaxamos os controles do superego e, uma vez, acionado o estopim “enviar”, exaure-se toda a possibilidade de uma contra-ordem. Passamos da consciência à inconsciência, berço, como se sabe, de idéias confusas e nos entregamos a digitar mal com grande facilidade.

A recente história das comunicações é extreme em mensagens desastrosas, pois nossa maior preocupação direciona-se a evitar a rapinagem nas contas bancárias. Adicione-se ainda, o fator distância, a nos tornar menos sensíveis à epiderme dos outros.

A mesma amiga que me levou a ingressar no sistema, veio em meu socorro: “Se continuares a filosofar assim, vais ficar conhecido como um baita chato triste; evita enveredar pelos caminhos labirínticos da abstração”. Ora, como se vê, as belas loiras, surpreendentemente, também filosofam. Excluídas as finalidades indispensáveis: pesquisa, relações comerciais, contato com familiares no exterior, tal tipo de comunicação, se compulsiva e frenética, muito me preocupa - como de começo expus. Bate papo? Pressinto que não é a mesma coisa, pois falta o olho no olho, a inflexão da voz, a convicção íntima, a mímica facial, sobretudo esta, a dizer e a redizer que estamos apenas brincando. Ademais, as palavras nem sempre revelam nosso verdadeiro estado de alma.

Com o telegrama era diferente; tínhamos de andar até o Correio e, nesta milenar luta do homem pela expressão, nada é mais favorável ao raciocínio, a corrigir desvios, do que uma caminhada lenta, introspectiva e cuidadosa.

Por tudo isso, prefiro o telegrama, porque censor antecipado de arroubos irrefletidos, porque pioneiro em desaconselhar a instalação de onerosas voluptuárias embaixadas, já que, sóbrios consulados bastam, como extensão soberana de nosso território.


Escrito por Paulo F. M. Pacheco

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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