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Paulo Francisco Martins Pacheco é Advogado, Cirurgião Buco-Facial, Coronel da Reserva BM, Prof. De Ciência Política da FURG - com Pós-Graduação pela Univ. Mackenzie – SP, Escritor – Membro da Academia Pelotense de Letras.


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DEVER CÍVICO

terça-feira, 08 de Julho de 2014 | 09:10

“Há tanta tolerância nessas Casas Legislativas, que

dia virá em que não será impróprio chamá-las: Ca

sas de Tolerância.” (Gustavo Corção)

Embora dispensado de votar, tenho exercido a autoridade da idade, a fim de anular meu voto à Câmara e ao Senado, entes teratológicos gerados pela mal-nascida Constituinte Congressual de 86/88, que consagrou o sistema bicameral, hoje inexistente em muitos Estados.

Querem válido meu voto? Pois então reestruturem a Câmara e o Senado, pela redução de 513 para 250 o número de deputados; eliminem a hiper-representação dos estados da Região Norte; abram mãos de quatro das cinco passagens mensais pagas pelo erário para, semanalmente, visitarem as bases – o que enseja inúmeras faltas às sessões e a subseqüente onerosa convocação extraordinária; mandem de torna-viagem aos municípios de origem 90% dos 17.000 funcionários da Câmara, a fim de reforçarem o trabalho indispensável e suarento dos garis; encolham o tempo de mandato dos senadores para quatro anos (como vou saber o que o senador vai pensar daqui a oito anos?); acabem com as aposentadorias após duas legislaturas, de resto, com a excrescência da “reeleição”, gerada em causa própria, através de manobras curvilíneas.

Só o orçamento do Senado daria para manter seis universidades do porte da UFPEL, enquanto o orçamento da Câmara (que roça os R$ 2.300.000.000,00) supera o orçamento de Porto Alegre. São aprovadas apenas 200 leis por ano e 194 destas são da iniciativa do Planalto. A Lei de Falências teve uma gestação de 11 anos. Adicione-se ao locupletamento sobredito: o auxílio moradia e inúmeros privilégios de difícil inventário. Não por acaso, Brasília tem a maior renda per capita do Brasil.

Objetar-se-á, que é necessário melhorarmos paulatinamente o Congresso, votando no candidato menos venal e mais preparado intelectualmente? Ora, Delfim Neto advertiu que o deputado culto deve quedar-se mudo, para não provocar a antipatia dos medíocres, cuja maioria é avassaladora. Ademais, os parlamentares que não se revelaram corruptos não deixam de ser omissos.

O projeto de redução do número de deputados, apresentado pelo Clodovil, foi com ele “engavetado”. Rogo apontarem o nome de outro parlamentar que teve o topete de se insurgir contra as mordomias existentes nesses focos – crônicos - de virulentos dilapidadores do erário.

Patente e patentíssima, pois, a insensibilidade desses “representantes” à epiderme dos seus representados, haja vista o escandaloso aumento de 61,83%, no início da atual legislatura. Espanta-nos a falta de memória dos eleitores. Daí inferir-se: criaturas nascidas para serem devoradas, infelizmente não aprendem a não deixar-se devorar...

Também não é válido afirmar-se: “Quem não vota não pode reclamar!” É que, pelo menos não se estará levianamente referendando estruturas corruptoras, oriundas de uma Constituinte não exclusiva, integrada por pianistas, gazeteiros – ultrapassavam 200 - senadores biônicos, vendilhões da consciência e os que foram eleitos através do estelionato do Plano Cruzado, que agonizou um dia após as eleições. Somem-se a estes, os cassados pelo TRE do Paraná e o rufião da memória do Tancredo...

Obtidos 51% de votos nulos estes não logram invalidar a eleição? Pois deveriam. Além do mais – como se necessário fosse um além do mais - trata-se de um começo, bem menos cruento do que uma revolução e cuja finalidade é exercer uma pressão psicológica dos idealistas sem política contra os políticos sem ideal. Adianta tentarmos insuflar um balão furado?

Aqueles que teimam em melhorar paulatinamente o Congresso, sem modificá-lo através de uma Constituinte Exclusiva, única capaz de acabar com os abusos legislados, comumente confundidos com direitos adquiridos, são tão ingênuos quanto aqueles que crêem apagar-se a luz, arrancando os próprios olhos.

 

 

Taquara- RS- Paulo F. M. Pacheco - Professor da FURG aposentado.


Escrito por Paulo Francisco Martins Pacheco

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O jovem casal

quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013 | 10:08

Hora crepuscular de domingo, momento em que as pessoas de temperamento melancólico tornam-se mais vulneráveis, propensas a desmanchos interiores, enlevos íntimos.

Já instalado no ônibus do box 43 da estação rodoviária de Porto Alegre, passo a observar um jovem casal na iminência de embarcar. Sentados face-a-face, frente à bagagem volumosa, se dispõem a enfrentar longa viagem ou será que padecem a mágoa de breve forçado afastamento?

Natural me parece ser, que passem despercebidos ante a multidão tumultuária e rumorosa da estação, para a qual parecem devolver a mesma indiferença afetiva. Certamente foi a crônica empatia com a farda da Brigada Militar, que me levou a percebê-los. O soldado e a esposa – como sinalizam as alianças – estão a prodigalizar, em meio àquele desvairamento coletivo, contagiante cena de ternura e beleza. Destacam-se, principalmente, pela distinção. Sim, por que a beleza, quando desacompanhada da distinção, roça à vulgaridade.

Ele enverga singelo, mas impecável fardamento-de- instrução. A relativa distância não me permite ler o nome apenso ao lado esquerdo da camisa-de-campanha, tampouco o brasão da Unidade a que pertence. Porta revólver e, no cinto, munição suplementar. Seu rosto é claro, os lábios finos, cabelos pretos, lisos. Apesar da idade, já esboça incipiente calvície na região occipital. No lado direito da camisa – de- instrução ou de combate, ostenta pequeno distintivo impresso em azul (este detalhamento excessivo justifica-se, por que não me resigno a que a eles não cheguem os acenos de minha admiração).

A esposa tem um rosto bonito. Sorri, plena de jovialidade. Veste-se de maneira discreta, apanágio das mulheres verdadeiramente elegantes. Mantém a cabeça altiva, como num perfil de deusa. Acabam de fazer um pequeno lanche e merece salientarmos a observância da etiqueta, o bom-tom como o faziam, incapazes de umedecer, sequer, a ponta das unhas. Em suma: retratam muito bem a Corporação representada.

Comovente a maneira como entretinham os olhos um no outro. Ele, como a reeditar os versos do poeta: “Gosto de envolvê-la com meus olhos, com meus olhos que nada mais veem, quando a envolvem...” Percebível, claramente percebível, o encantamento e o diálogo carinhoso que mantinham. O distinto colega de farda a intervalos olha para trás, ora à direita, ora à esquerda, num gesto medular de permanente vigilância. Submete-se a esse desconforto da cabeça mal voltada – como na descrição pessoana -, pois à missão de proteger a sociedade, se lhe adiciona – com todo o direito de adicionar, viram?! -a de proteger sua amada.

Fato singular: a dureza da profissão que abraçou - onde a prudência está, não raro, em agir com audácia e a audácia está, não raro, em agir com prudência – não se mostrava inconciliável com gestos que delicada, amorosa e inexcedivelmente tributava à esposa.

Em determinado momento ele beija o dedo indicador e vai colher microscópica partícula pousada na face da esposa-namorada. Depois, beija-a suavemente, sem o despudor com que, hodiernamente, os moços expõem e aviltam suas futuras esposas na via pública. Impossível e injusto não admirá-los. Mostram-se dignos um do outro. Merecem-se. E dão,desestudadamente, uma sublime lição de amor sentimento, de inefável bem-querer.

Ao contemplá-los – por que faculdade distinta do simples ver – incoercíveis cogitações assomam em minha mente: “Estarão de retorno da Operação Golfinho?”... “Parece-me um salva-vidas!”... “Uma intempestiva insensível transferência para o Interior do estado os estaria condenando a viverem em lugares distantes?”... E logo, por um desses nem tão estranhos mecanismos da memória, intuo que não há funções grandes nem pequenas, apenas funções bem exercidas e funções mal exercidas, e que o amor, como vibração da essência divina, independe das circunstâncias de local e de tempo.

Meu ônibus parte, levando-me em “estado de graça”. Então se me redesenha, com incrível nitidez, minha mãe em desespero, abraçada a meu Pai (ex-Combatente de 30 e de 32), numa madrugada brumosa e fria de São Francisco de Paula, enquanto ele calçava pressurosamente as perneiras, para coibir desordens nos focos de virulentos inimigos da sociedade.

Lembrei-me das mesmas apreensões que mais tarde padeceria minha esposa, há dois anos falecida, médica dedicada à família brigadiana. Hoje, decorridos apenas três dias do pôr-sol do último domingo, momento em que agonizam em todo mundo - não só “nos bentos cantos dos conventos”, as orações a Nossa Senhora, pedi a ela para que jamais aqueles jovens enamorados se quedem vencidos. E na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, sinto impor-se, complementarmente, a criação do Dia da Mulher Brigadiana, quer a enquadrada em nossas fileiras, quer a que se tornou cativa de nossos laços afetivos. É que, o desapego à ostentação, o espírito de renúncia, a busca do amor pelo amor, a resignação a uma vida singela, constituem as mais incisivas de suas virtudes.

Socorro-me desta revista da Asof/BM, como forma de fazer chegar a todos e a cada um de nossos soldados (quem sabe ao próprio casal-enamorado) a música daquelas fisionomias que o tempo enrugará, mas não conseguirá silenciar, pois a beleza não morre, como eterna reprodução de momentos eternamente belos.

Paulo F. M. Pacheco – TCQOEMREF - CFO Turma 1960.


Escrito por Paulo Francisco Martins Pacheco

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Alberto Amaral Alfaro

natural de Rio Grande – RS, advogado, empresário, corretor de imóveis, radialista e blogueiro.

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